
Tradições As portas do paraíso aos olhos de Júlio de Matos
Um Fotógrafo mostra, no Centro Português de Fotografia, no Porto, imagens de rituais de Manikarnika Ghat, na Índia. Uma Exposição que vai estar patente até ao próximo mês de Novembro
J. Paulo Coutinho
As cinzas ardem há milhares de anos em Váránasi: ali, junto às areias do rio Ganges, guardadas pelo homem, para alimentarem a pira de fogo da cremação, numa das mais conhecidas "portas do paraíso" – Manikarnika Ghat, na Índia.
Júlio de Matos, fotógrafo, arquitecto e fundador do curso superior de fotografia da Cooperativa Árvore, no Porto, foi, em Abril deste ano, até à cidade indiana de Váránasi. Desta feita, para percorrer, recolher e, agora, mostrar, até Novembro, no Centro Português de Fotografia (CPF), no Porto, todo o ritual funerário na mais famosa "porta do paraíso" da Índia.
A morte, que a cultura ocidental oculta e esconde do dia-a-dia, mas também ritualiza e dramatiza, é o oposto ao cais de partida de Marnikarnica Ghat. Transforma-se a cremação em despedida, numa partida serena para a outra vida.
Váránasi, cidade milenar, que sobreviveu, nos últimos cinco mil anos, a tempestades, cheias, invasões e convulsões humanas, conseguiu sempre manter as cinzas acesas onde se pode ir buscar lume para a cremação, num acto de fé – um fogo eterno.
O Ganges, ali, subitamente, inflecte para Norte, deixando a cidade exposta, a nascente, e à mercê do olhar inquietante, curioso e intenso de Júlio de Matos. Abordando, de fora para dentro, a cidade, e por camadas "ou não estivesse eu numa cultura estranha",
como refere.
Interessado em "projectos de profundidade", que lhe trouxessem uma maior descodificação da realidade numa perspectiva visual, vai, aos poucos, penetrando no ambiente de Manikarnika Ghat.
Aborda, em primeiro lugar, a ambiência urbana, alguns retratos das suas personagens, para, subitamente, parar nos madeireiros. São eles que, através de um trabalho pesado e árduo, quem serra, transporta, pesa e vende, ao quilo, o combustível para a eternidade. Que alimentará o tamanho das piras, conforme o poder económico da família do morto.
Descendo um pouco mais, e "sugado por aquele vortex de energia", aproximamo-nos do cortejo fúnebre, não sem antes visitar os lares onde viúvas, que vivem apenas da caridade e aguardam serenamente pela morte, porquanto, para muitas, a viuvez é a perda de todoo seu estatuto social.
O "rio mãe" está ali! Chegados que estamos às portas do paraíso, no cais da cremação. Aqui se inicia o percurso final de despedida. Os rituais sagrados começam. Em silêncio e com serenidade. Os mais próximos e todos os actores deste ritual esperam tranquilamente que as brasas incendeiem a pira e que o corpo se transforme em pó, para seguidamente espalhar pelo Ganges as cinzas.
Numa luz poética, desenhada num ambiente configurado por Júlio de Matos neste cais de partida, reconhecemos o simbolismo da união da vida e da morte, neste local sagrado da religião hindu.
Associação Portuguesa de Protecção ao Deficiente Autista (APPDA) em Gaia!
Esta doença -o autismo- vive no centro do sofrimento diário de muitos pais, sem uma rede eficiente de apoio clínico - como muitas outras -, uma realidade escondida como muitas outras. O eterno atraso cívico deste País, tão distante da Europa, faz de muitos humanos, heróis do nosso dia-a-dia




