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abril 11, 2005

o Papa João Paulo II

A imprensa esqueceu por dias o mundo para esmifrar até ao último segundo da emissão o depósito do corpo . Até os pormenores finais o culto da personalidade.
Até ao encerrar o corpo, “que ao pó voltará”, embora protegido por chumbo e madeiras nobres como o Vaticano gostou de mostrar.
E o culto da diplomacia continuou e juntou os mais importantes em gestos de perfeita hipocrisia, de que todos falaram com admiração e vénia. Esquecendo que o Papa na deslocação a Timor não beijou o solo Timorense.
Houve fé, adoração, orfandade, mas esta pertenceu aos católicos.
E aqui ficam dois retratos do JN, talvez os não mais significativos... mas de pontos diferentes de quem tem um Ídolo- wotjtyla_ na sua pequena terra,na Polónia e de quem não gosta de sentidos obrigatórios.

http://jn.sapo.pt/2005/04/09/em_foco/terra_wotjtyla_adeus_lagrimas.html

Terra de Wotjtyla diz adeus em lágrimas
emoção Pequena cidade que viu nascer o Papa seguiu enterro através de ecrãs gigantes

enviado especia La wadovice

Amanhã longa de emoções contidas durou até que os sinos da Basílica de Santa Maria tocaram sem parar. Os rostos carregados que cobriam a Praça João Paulo II, em redor da igreja onde o pequeno Karol Wotjtyla foi baptizado e fez a comunhão, fixaram ainda mais o ecrã gigante e quase ninguém controlou as lágrimas.

Na praça principal da pequena cidade que viu nascer o Papa estavam 15 mil pessoas com os olhos no Vaticano e o coração em Wadowice. "É uma emoção muito forte, estar aqui a ver João Paulo II ser enterrado", diz Danuta Kaczamarek, com o rosto ainda molhado, que chegou bem cedo com o marido Maciej e a filha Oliwia para garantir a primeira fila. Maciej aperta de novo a mão de Danuta e acena com a cabeça "Já sabíamos que não íamos conseguir aguentar. O Papa era tudo para a nossa família, era tudo para esta terra".

"Ele trouxe-nos o orgulho de sermos polacos", acrescenta Danuta. A pequena Oliwia brinca com a foto da Papa que hoje só se vendia, timidamente, num ou noutro canto da praça.

Um dia excepcional para a cidade onde o comércio, que ontem encerrou em massa, vive quase só da imagem de João Paulo II. Cafés e restaurantes não abriram e os transportes públicos também foram cancelados. Só ao final do dia meia dúzia de "Opominki" carregadas de ingénuos "souvenirs" começaram a ter filas à porta. Tal como nas duas pastelarias que muitas horas depois da celebração mataram a fome aos peregrinos com o famoso "kremowki papieskie", uma espécie de mil-folhas adorado pelo jovem Wotjtyla, quando ainda era "Lolek" para os mais íntimos.

Ao lado da Basílica de Santa Maria, um templo carregado de mais referências ao Papa, milhares de lamparinas iam cobrindo a rua Koscielna. Só a entrada do número 7 foi deixada livre. Ali, onde Karol Wotjtyla nasceu, só as flores repousavam no pátio interior. Ao lado, no palanque onde depois do enterro se celebraria outra missa, a cadeira de braços onde João Paulo II se sentou nas suas visitas a Wadowice permaneceu vazia, cruzada apenas com uma fita negra e uma coroa de flores amarelas e brancas.

Não há peregrino que não fotografe o cadeirão de madeira clara. Nem a estátua, ao lado da Basílica, com o busto de João Paulo II. Aparentemente alheada do ambiente da praça, Janek Chorzewski tem 16 anos e assiste ao desenrolar das cerimónias sentada com duas amigas na montra de uma loja. A indiferença é, no entanto, aparente. Janek está afastada porque, confessa, "não aguentava estar no meio da praça, a ver o Papa a ser enterrado".

As duas amigas escondem o rosto com o cabelo longo e não dizem uma palavra. Janek vive nos arredores de Wadowice, em Tomice, e só viu João Paulo II uma vez. "Foi há três anos, era ainda mais nova e não entendi muito do que ele disse". A figura de João Paulo II marcaria, contudo, a jovem de botas militares dois números acima do seu, calças e blusão negros. "Ele adorava a juventude e para nós, polacos, além dos nossos músicos preferidos também temos o Papa como ídolo. E quando se perde um ídolo é muito triste".

http://jn.sapo.pt/2005/04/09/em_foco/resistentes_costas_voltadas_para_o_v.html

"Resistentes" de costas voltadas para o Vaticano


Ruas desertas, lojas fechadas, locais turísticos com pouca gente o centro histórico de Roma parecia, ontem de manhã, um cenário de cinema montado para alguns grupos de turistas e para os poucos italianos resistentes e revoltados pelas exéquias que classificam de "fanáticas".

"A televisão foi sequestrada pelo Papa, não há nenhum pluralismo depois da morte de João Paulo II, isto é escandaloso!", afirmava, indignada, Michaela Caruso, em plena Piazza Navona, em frente do "Pasquin", uma das estátuas "falantes" de Roma, utilizadas no século XV para exprimir o descontentamento contra o poder e afixar panfletos. A estátua estava, ontem, coberta de inscrições coladas pelos "contestatários" "Um Papa morre e de seguida aparece outro!"

As lojas de roupa e os cafés do centro da cidade permaneciam fechados. Apenas alguns comerciantes resistiam a esta unidade, não por ideologia, mas pelo aspecto financeiro.

"As grandes cadeias não têm qualquer problema em fechar hoje. Eu sou um pequeno comerciante e gravei em video as exéquias para as ver mais tarde", justifica-se Francesco Rogano, gerente de uma loja de carteiras. A única que ontem estava aberta na sua rua.

Os raros italianos a andarem pela rua ou no "desemprego" forçado pelas exéquias mostram-se, por vezes, muito críticos perante o "culto da personalidade" visível, dizem, desde o dia seguinte à morte do Papa.

"Nós trabalhamos no Tribunal de Contas, em Roma. O nosso escritório está fechado, como todos os serviços públicos, devido às exéquias de João Paulo II, por isso passeamos longe desta loucura adoradora", dizem Gabrielle De Angelis e Fausto Pederzoli, citados pela agência France Presse.

Este casal, que se diz laico, não compreende "como se pode aceitar que o presidente Bush e Condoleezza Rice estejam ali a rezar, enquanto continuam a matar tanta gente". "Estamos fartos de toda esta hipocrisia", acrescenta Gabrielle.

O mesmo cepticismo chega pela voz de Paul Birrini, um professor universitário, de 68 anos, que vive a dois passos da Piazza di Spagna, no centro de Roma "É revoltante! Todos estes jovens vêm como se se tratasse de um concerto de rock ou de um jogo. Quantos deles respeitam os preceitos do Papa, quantos deles não usam preservativo, quantos deles já se divorciaram", lança, ironicamente, este romano.

(c)JN

Publicado por jpcoutinho às abril 11, 2005 12:12 AM