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abril 04, 2005
Carlos Calvet
Exposição "Carlos Calvet", 2 de Abril a 3 de Julho no Centro Português de Fotografia.
Com um percurso que, na Fotografia, se inicia na definição do momento decisivo de uma fenomenologia quase autista, Carlos Calvet soube navegar por entre a multiplicidade dos olhares que, nos anos cinquenta tanto se contrapunham como recusavam o debate. E, se há uma ponta, aqui e ali, do formalismo salonista, há acima de tudo, a forma muito sua de recusar o maneirismo: as suas fotografias trazem sempre a sua assinatura, fazem-nos cair na gama dos cinzentos bressonianos, mas também na crueza americana da fotografia directa quase sempre aligeirada por aquele elemento onírico do Surrealismo. Outras imagens como estas multidões que se fazem olhando-as de cima ao modo modernista, ou as paisagens do mar aproximando-se da praia de falésia, ancoram-se naquele dispositivo cinematográfico visual que é tão definitivo nesta utilização do meio fotográfico.
Fundamentalmente são imagens de Lisboa e do mar, imagens que tentam a unidade das coisas e do homem o ar marítimo que ataca as estátuas de uma época posterior, o vai-vém das ondas, dos cacilheiros e dos pacientes passageiros, as formas caóticas que se desenrolam no caleidoscópio geométrico das águas. Mas há as fotografias de viagem, as paisagens urbanas de uma província de desenho mouro, as prematuras séries narrativas, os retratos e as espantosas reportagens dos ajuntamentos, das expectativas que a Fotografia pode adivinhar, - uma vida de prosseguidos desenhos, de composição. Porque há no olhar do fotógrafo e pintor Carlos Calvet o vício da composição. E é irrelevante que o dinamismo das estátuas reconstitua velhos esquemas masoquistas, que aquele interior escuro realce o objecto nulo como é uso do surrealismo, que os pequenos acontecimentos no interior de um acontecimento maior se desliguem do "actual" e vão vincular-se ao sonho da universalidade. Estas imagens estão fora do tempo, a Mulher de branco já faz parte do nosso imaginário e continuará a fazer vibrar a saia no escuro do beco, aquela família de barquinhos esguios, que já não existe, continua a receber as ondas da baixa-mar numa gaveta da memória e num cacilheiro qualquer todas as aventuras do mundo podem vir a acontecer. Porque estas imagens escapam à História da Fotografia, aquela que se faz com complexos de estilos e mensagens codificadas, e, quando as olhamos, não há nostalgia nem decifração. Sabemos apenas, com a certeza dos reencontros, que este foi o tempo de um olhar inteiro.
CARLOS CALVET, (Lisboa, 1928)
Estudou arquitectura no Porto e é também pintor e fotógrafo. Próximo do grupo surrealista de Lisboa, participou na sua exposição de 1949, mas inicia a sua produção fotográfica apenas em 1956, já que, na década de 50, devido à sua formação em arquitectura se passa a interessar pelo cinema e pela fotografia.
Tanto na pintura como na fotografia o seu processo é, sempre experimental: do surrealismo ao abstraccionismo simbólico, deste ao conceptualismo da Pop-Art e, sempre, aquela curiosidade pelo oculto que foi uma das veredas do surrealismo português. Por isso não há na sua fotografia a convicção realista e, num processo que desenvolve até hoje, é a alteração cénica da atmosfera da composição, ( e daí o recurso a diversas práticas fotográficas) que constitui a sua diferença e onde acode aquele atenuado - elemento metafísico que é mais visível na sua pintura, mas que se insinua nas imagens fotográficas, - o que explica o seu lugar distintivo na fotografia portuguesa.
Será lançado o álbum "Carlos Calvet", editado pelo CPF/MC
Publicado por jpcoutinho às abril 4, 2005 12:11 AM
Comentários
Impressão minha ou temos aqui um cantinho com pintura nova? Boa semana, amigo! Beijocas grds. Malae***************************
Publicado por: Malae às abril 4, 2005 08:15 PM